Sou mulher e adoro viajar

Em Agra, sentada numa pensão durante o pequeno-almoço, antes de enfrentar as multidões do Taj Mahal, na Índia. 
Embora desde pequena me chamassem maria-rapaz, ser mulher é algo que sempre me deixou muito satisfeita. Acho que desde que comecei a caminhar que exploro os recantos mais recônditos, primeiro da minha casa, depois do meu bairro, e progressivamente do mundo. Lembro-me quando era bem pequena e os meus pais saíam de casa, eu montava umas escadas e subia para o sótão de casa para explorar as velharias e segredos que lá existiam. Mas, um dia, descobri que o sótão não era suficiente e comecei a explorar as ruas, ruelas e até minas e campos perto de casa. Quando a minha avó estava mais distraída, fugia e passava horas fora de casa. Hoje, parece-me perigoso, mas lembro-me de entrar em minas de água abandonadas com fósforos que tirava de casa e explorar corredores escudos e claustrofóbicos. 

Esperando o autocarro na Patagónia argentina. 
Dizem que a vontade de viajar pode estar nos genes. É possível. Desde muito pequena que ia com os meus pais para a Serra da Freita e do Gerês com a secção de Montanhismo do Clube de São João da Madeira. As noites passadas em torno das fogueiras fizeram crescer em mim um desejo de liberdade, de pertencer a um espaço sem fronteiras e barreiras. Gostava de pertencer a um lugar onde pudesse ir para onde quisesse e quando quisesse. Durante muito tempo, temo que os meus pais e amigos mais próximos achassem que eu fosse maluca. E se calhar era! 

Um fim de tarde em Julho no Lago Baikal, na Síbéria, Rússia. 
Barragem das Três Gargantas, na China. 
Os anos foram passando e o meu desejo de "correr" mundo foi crescendo. Um dia decidi dar um pontapé na mesa e mudei de vida. Deixei tudo aquilo que a maioria das mulheres quer: uma família estável, uma boa casa, um futuro previsível e estável. E para quê? 

No topo do Toubkal, a montanha mais alta do norte de África, em Marrocos.
Num curso de alpinismo em Espanha.
Para poder fazer da minha vida tudo aquilo que eu queria: viajar, aprender, compreender o mundo e acima de tudo ser livre. Seria louca? Provavelmente sim, mas até hoje, 10 anos depois, continuo a achar que não. O que ganhei eu com isso? Pois bem, resolvi hoje, Dia Internacional da Mulher, fazer uma espécie de balanço. 

Quedas de água do Iguaçu.
Ruínas jesuítas no Paraguai

1. Não estou sozinha
Perceber que no mundo há imensas mulheres como eu, que resolveram abdicar da vida familiar estável, de um casamento de sonho e de ter filhos. Há imensas mulheres cuja vida familiar com filhos está longe de as satisfazer. Eu sou apenas mais uma. Se vou ser assim para sempre? Não sei, mas sou assim agora.

Dormindo na paragem de autocarro no Egipto.
Nas ilhas Uros, no Peru. 
2. Sentir que estou viva todos os dias
Estar muito tempo no mesmo lugar faz-me sentir inútil. Não sei bem explicar porquê mas sinto que estou a perder o meu tempo útil de vida com algo que é inútil. Para me sentir viva preciso de pôr o pé na estrada, como dizem os brasileiros. Essa adrenalina faz-me sentir viva. Preciso dela para viver. 

Bibliografia para uma viagem no Médio Oriente.
Explorando os parques nacionais do Chile.
3. Experimentar as coisas mais incríveis do mundo
Se tivesse ficado em casa, se nunca tivesse "queimado o soutien", se nunca tivesse dado o "grito do Ipiranga" nunca tinha conseguido fazer algumas das coisas mais malucas que já fiz e que tanto me orgulho e prazer me dão e deram. Entre elas está subir a um vulcão activo no Chile, nadar com tubarões-baleia no México, escalar o ponto mais alto da América Central, escalar um dos pontos mais afastada do centro da Terra, fazer parapente na América do Sul, navegar o canal Beagle, fazer trekking na Gronelândia, sobrevoar as linhas de Nazca,  mergulhar em recifes de coral, participar em cerimónias religiosas hindus, budistas e islâmicas, nadar entre duas placas tectónicas, fazer kayak entre glaciares, caminhar quatro dias para chegar a Machu Pichu, nadar no mar Morto, dormir no deserto, escalar glaciares, cruzar o Estreito de Magalhães, percorrer a Rota da Seda, etc. 

A nadar com tubarões-baleia no México.
Experimentando as lianas na Amazónia.
4. Perceber que cresço todos os dias
Viajar é pôr-nos à prova todos os dias e todos os minutos. Há constantes desafios a serem superados. Alguns conseguimos superá-los com sucesso, outros não. Mas todos eles me fazem crescer.

Convivendo e aprendendo com uma comunidade indígena na Amazónia. 
Explorando Myvatn, na Islândia. 
Trekking no Quirguistão, numa viagem ao longo da Rota da Seda. 
5. Sentir que ser viajanta é uma vantagem
Uma das coisas que mais me fascina nas viagens é que, neste meu mundo, ser mulher, é claramente uma vantagem. Nos países mais machistas, como o México, sou bajulada como se fosse um "doce" prestes a ser conquistado. Nos países mais conservadores, como o Índia, sou protegida pela população local para não ser vítima dos "menos simpáticos". Nos países muçulmanos, como a Turquia ou o Irão, sou excessivamente bem tratada pelos homens que pretendem ser engraçados e protectores para com o sexo oposto, especialmente se este for ocidental. Mas, é junto das mulheres locais que ser viajanta é uma grande vantagem. Consigo sempre grande empatia com a população local feminina, o que me permite conhecer melhor o seu modo de vida e os seus problemas. 

Mercado de Minab, no Irão.
Nos templos de Angkor, no Cambodja. 
6. Sou livre
É verdade, todos nós somos livres, mas nem todos sabemos usar bem essa liberdade. Ser livre é fazer escolhas, umas certas, outras erradas. Ser livre é tomar opções, umas conscientes, outras inconscientes. Todas elas fazem parte da viagem e todas elas enriquecem as viagens. Essas opções fazem de nós aquilo que somos e fazem da nossa viagem isso mesmo: nossa!

Snorkeling no recife de coral.
No glaciar Viedma, na Argentina. 
Trekking em Ilulissat, na Gronelândia. 
7. Aprender
Adoro aprender. Tenho sede de conhecimento. Uma das coisas que me chateia em viagem é não poder trazer para casa tudo aquilo que vejo. Tento, através das fotografias, dos meus diários de bordo e do blog, trazer o máximo que posso. Mas esse máximo nunca é suficiente. Aprendo imenso com as viagens que faço. Aprendo Geografia, História, Política, Antropologia, Etnografia, Ciências Físicas e Naturais. Aprendo tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Quero mais, quero muito mais...

Aprendendo e ensinando na Mongólia. 
Procurando baleias de bicicleta na península de Valdes, na Argentina. 
8. Conhecer o mundo com os meus próprios olhos
Adoro ler e conhecer o mundo pelas palavras e fotografias dos outros, mas nunca ninguém perceberá a satisfação que tenho quando vejo, aprendo e conheço as coisas com os meus próprios olhos. O mundo é bonito demais para ficar longe do meu alcance. Eu preciso de vê-lo e senti-lo. 

Explorando as ruínas de Xochicalco, no México. 
Explorando templos budistas em Chiang Mai, na Tailândia. 
9. Conhecer pessoas incríveis no mundo
Não sei se as pessoas mais interessantes viajam mais ou se tenho tido muita sorte. A verdade é que algumas das pessoas mais interessantes que conheço, conheci-as ou em viagem ou em contexto de viagem. Para além disso, a viagem permite-me conhecer imensas pessoas dos países onde estou e isso é uma das melhores coisas que trago das minhas viagens.

Convivendo com a população garifuna no Belize.
No Nowruz, o festival de ano novo, no Irão. 
Fazendo amigos no deserto do Sahara, Marrocos. 
10. Experimentar as comidas mais estranhas 
Adoro experimentar a gastronomia local. A maioria das vezes corre bem, mas muitas também corre mal! Desde os gafanhotos chineses às osgas tailandesas, passando pela baleia ou foca na Gronelândia, já experimentei imensas coisas. E estou sempre disponível para conhecer a gastronomia do meu destino de viagem.

Comendo... não sei bem o quê na Malásia.

Percorrendo o rio Li, em Yanshuo, na China. 
11. Aprender a desenrascar-me
Sempre fui uma pessoa desenrascada mas nunca pensei que tivesse ainda mais para aprender e a verdade é que sim, tenho. Sempre que viajo tenho novos desafios e tenho constantemente que me desenrascar. Isso faz parte da viagem e é, definitivamente, uma das coisas que mais aprecio nelas.
À boleia no Equador. 
Num autocarro local no Senegal.
12. O assédio sexual é raro 
Depois de viajar sozinha na América do Sul, em países como Argentina ou Paraguai, conhecidos pelo avanços e machismo dos seus homens, não considero que o assédio sexual seja um problema em viagem. Não digo que não exista, mas é tão raro quanto no nosso próprio país. As mulheres que têm medo de viajar sozinhas podem estar descansadas, não serão nem mais, nem menos assediadas nos outros países do que o são nos trajectos casa-trabalho em qualquer país da Europa. Ter medo do assédio também não é mau. Faz-nos ser cautelosas, e ser prudente é muito bom em viagem. No Irão ou na Síria viajei acompanhada mas, muitas vezes, sai às ruas sozinha para visitar alguma coisa ou fazer compras. Nunca tive problemas e até pelo contrário; Sentia-me ainda mais protegida e acarinhada pela população local.

Tikal, na Guatemala. 
Mochilando em Cabo Polónio, no Uruguai. 
13. Sozinha ou acompanhada
Já viajei sozinha durante quase um ano na América do Sul, mas a maioria das minhas viagens faço-as acompanhada. Não sei se prefiro viajar sozinha ou acompanhada. Acho que depende muito da disposição. Gosto muito de viajar acompanhada porque tenho necessidade de partilhar com alguém as minhas frustrações e alegrias. Mas, viajar sozinha também é um desafio e deixa-me mais disponível para conhecer pessoas. Isso também é bom. Quando me perguntam: viajar sozinha ou acompanhada, o que recomendas? A minha resposta é só uma: vai de qualquer maneira! 

Kayak na Gronelândia.
De mochila no paraíso, Belize. 

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