A Gronelândia não é o fim do mundo mas está lá muito perto

Sentada no banco do aeroporto aguardo a chamada de embarque para sair de Ilulissat. São 15 h e o aeroporto está repleto de gente. Quatro gronelandeses esperam o helicóptero para um povoado do norte, pouco mais de uma dezena, tal como eu, aguarda o voo para Kangerlussuaq. Menos de duas dezenas de pessoas enchem o aeroporto.


São horas de começar a despedir-me da baía de Disko e da Gronelândia. Apesar de ter passado mais tempo do que aquele que estava previsto em Ilulissat e de, infelizmente, não ter visitado a ilha de Disko, acabamos por fazer muitas coisas aqui. É verdade que o tempo não ajudou mas nestas coisas, não podemos ficar sentados no hostel à espera que o tempo mude. Como tínhamos algum tempo disponível acabamos por visitar os lugares da baía devagar e ter inclusive tempo para conhecer a vida de Riikki, uma gronelandesa que contactamos através do couchsurfing, e que nos recebeu de braços abertos em sua casa. Com esta proximidade pudemos perceber muito melhor a dificuldade de viver num território como a Gronelândia e todos os constrangimentos que a população vive diariamente.


A bordo do avião que nos leva a Kangerlussuaq é possível observar, do lado direito, o litoral da Gronelândia, recortado por inúmeros fiordes e preenchido por centenas de lagos. É bom ver que percorremos toda aquela área de barco. Do lado esquerdo, estende-se o manto de gelo. O tempo continua nublado, apesar das promessas de tempo limpo do serviço meteorológico e por isso a vista alcança muito pouca da sua extensão.



Sair da Gronelândia não é fácil. Nós já tínhamos percebido isso quando marcamos as viagens e voltamos a perceber no dia da viagem de regresso. O nosso voo leva-nos de Ilulissat a Kangerlussuaq, uma povoação no limite do manto de gelo, com o maior aeroporto do território. Mais um legado da presença militar norte-americana na Gronelândia durante a II Guerra Mundial. Hoje, este é um dos poucos aeroporto que tem ligações aéreas com Copenhaga. Mas, a ligação não é feita no mesmo dia. Depois de um voo de 40 minutos, temos que pernoitar em Kangerlussuaq, juntamente com várias outras pessoas que vêm no mesmo voo.



Quando chegamos ao aeroporto percorremos a pé os dois quilómetros que o separam do hostel e revemos na recepção quase todas as pessoas que vinham no nosso avião: duas professoras dinamarquesas que trabalharam na Gronelândia há 50 anos e voltaram para a rever, um jovem norte-americano a viver na Gronelândia que viaja com 5 filhos pequenos e a ajuda de uma indiana e dois mochileiros alemães.



Quase todas as pessoas do voo de Ilulissat para Kangerlussuaq passam a noite no hostel porque também elas amanhã vão voar para Copenhaga. A paragem de cerca de 24 horas na cidade de Kangerlussuaq é prática comum e obrigatória. Infelizmente, como o avião chega às 15 h e parte no dia seguinte às 11 h, não resta grande tempo para explorar os arredores, o que nos leva a cingir à área urbana da povoação. Não há muito para ver aqui. Há no entanto uma estação de estudos polares, a KISS, que nós aproveitamos para visitar. Mas, tirando as lojas de souvenirs à volta do aeroporto, um hotel, um hostel e um supermercado, restou-nos uma loja de tailandeses e um restaurante tailandês para jantar. Mais uma vez, encontramo-nos todos no restaurante. A verdade é que não há muita hipótese de nos evitarmos aqui. Esta é uma das grandes dificuldades de viver na Gronelândia: esbarramos constantemente com as mesmas pessoas e não há mais ninguém. Já em Ilulissat, com os seus 3000 habitantes, víamos sempre as mesmas pessoas nas ruas e várias vezes ao dia. Aqui, em Kangerlarssuaq, uma povoação de 500 habitantes, isso é ainda mais notório. Pior ainda quando há apenas uma dezena de “gringos in town” e todos têm que ir aos mesmos lugares.




A noite foi passando, gerindo a carga das mochilas e conversando com as duas professoras. Animadas, contavam-nos que já dançaram naquele edifício, que anteriormente pertencia à base americana e aonde havia um grande salão de dança onde os militares se reuniam pela noite dentro, de forma a elevar a morar e animar as hostes. Uma delas deixava transparecer a emoção de ter passado ali parte de umas férias de Verão em que o mau tempo as prendeu em Kangerlussuaq durante 10 dias. Meu Deus, dizem elas, “como a Gronelândia mudou nestes anos. Está tão desenvolvida.” A verdade é que para mim, falta quase tudo na Gronelândia, especialmente as estradas que me levam por este mundo fora. Mas para elas, “agora aqui há tudo: telefone, internet, supermercados, carros (ainda que só para fazer cerca de 10 km de estrada em cada cidade), etc.” Não consigo imaginar como seria dar aulas numa escola primária há 50 anos numa aldeia de mineiros de carvão, na ilha de Disko. A vida deveria ser tão difícil que as minas acabaram por encerrar e toda a população foi deslocada para outras povoações. A aldeia foi abandonada e eventualmente acabou por desaparecer no meio da tundra. Um dia será, tal como os testemunhos das quintas vikings, mais um conjunto de ruínas que atesta o passado duro da vida na Gronelândia.



No dia seguinte, pelas 11 h da manhã voltamos ao aeroporto. Sentados em frente à porta de embarque fazemos o balanço desta viagem de exploração do Árctico. A verdade é que soube a pouco, a muito pouco. Temos vontade de voltar e explorar o norte do território assim como a costa Este. Apesar de termos viajado três semanas na Gronelândia e de termos explorado bem a costa ocidental e a parte sul, há ainda tanta coisa que ficou por ver. Mas, como em todos os lugares da Terra, é impossível conhecer tudo. No entanto, nós iremos continuar a tentar.



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