"Deus converte o deserto em lago e a terra seca em fontes" - Deserto de Lompoul

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupery, a determinada altura dizia: "Eu sempre amei o deserto. A gente senta-se numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia..."



Depois de passar a passagem do ano em Saint Louis e de descansar algumas horas, saímos de manhã da cidade num sept-place com destino a Thiés. O nosso destino não era a segunda cidade senegalesa, mas sim uma povoação de dimensão média, Kebérmér, onde paramos passado duas horas de viagem. Aí arranjamos um táxi para nos levar até à aldeia de Lompoul, a povoação mais próxima das dunas de areia do deserto homónimo no norte do Senegal. Aí, uma boleia de 4x4 levou-nos até ao nosso acampamento no meio das dunas. Estava uma tarde bem quente e abafada e só umas horas de descanso deitados debaixo de um eucalipto nos protegeu. 




O deserto de Lompoul é um deserto bastante modesto (tem menos de 20 quilómetros quadrados) mas é a continuidade geográfica do deserto do Sahara e dos grandes ergs da Mauritânia que ficaram esquecidos junto ao Atlântico. Como qualquer deserto é dominado por paisagens monótonas, grãos de areias em número infinito e tons monocromáticos. No entanto, são estes locais que nos fazem viajar, quer no tempo, quer no espaço. 



Tal como o pequeno príncipe sentei-me numa duna. Fechei os olhos e não vi, nem senti nada. Porém, no silêncio do deserto há sempre alguma coisa coisa que irradia. Senti-me viajar no tempo e no espaço. De olhos bem fechados voei no meu mundo. Escutei o som do silêncio do deserto do Thar na Índia, do Sahara no Egipto e Marrocos, do deserto de Atacama no Chile e no Peru, do deserto do Gobi na Mongólia, do deserto de Taklamakan na China ou do deserto iraniano no Irão. Escutei o som e senti os cheiros. O som é igual mas o cheiro da areia é bem diferente. As cores, bem, as cores das areias do deserto são todas diferentes. Esta é laranja, o mesmo tom das areias do deserto de Marrocos. 


Todos nós temos os nossos desertos, todos nós temos que os superar e atravessar, mesmo quando não sabemos o que vamos encontrar depois. Para não me esquecer dos desertos que vou ultrapassando na vida recolho areias dos meus desertos geográficos. Guardo-as em casa, dentro de um pequeno recipiente. Esta recordação não me deixa esquecer que o mundo também é feito de lugares estéreis. Mas, nesses mesmos lugares estéreis, há um horizonte que nos faz caminhar na sua direcção. Esse horizonte é a esperança. Esperança de encontrar vida.  E, como disse o pequeno príncipe "O que torna belo o deserto, é que ele esconde um poço nalgum lugar." 


As passagens pelos meus desertos têm sido efémeras e recheadas de vida e alegria depois de os cruzar. Estas passagens tornam-me forte e atenta, talvez porque gosto especialmente de dedicar o meu tempo olhando o horizonte. Em busca daquele momento em que o sol se põe e a noite cai. Em busca do momento em que o horizonte tem algo novo para me mostrar. Em busca do momento em que o deserto se converte num lago. Mas para isso, é preciso ter esperança e viajar. Viajar na esperança de encontrar mais um deserto a ser atravessado e sentir que, de alguma forma, na terra seca por onde caminho diariamente também encontrarei uma fonte de água.     


"Deus converte o deserto em lago e a terra seca em fontes" Salmos


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