Agricultura itinerante de queimada

No continente africano, especialmente nas regiões onde predomina uma vegetação arbustiva e em que os solos são pobres, as populações recorrem frequentemente a práticas de agricultura tradicional. 


No Senegal, à semelhança de outros países africanos, as populações locais tentam tirar o maior partido possível da terra estéril e sem grande aptidão agrícola. Os povos nómadas seleccionam o local onde vão fixar a sua aldeia nos próximos anos. Esta escolha é feita em função da existência de terra utilizável para a agricultura. Depois de escolher o local, a população corta as árvores e ateia fogo à floresta arbustiva circundante. Esta técnica designada por queimada, e que dá nome a este tipo de agricultura, permite fertilizar os solos com as cinzas da vegetação. No entanto, esta fertilização é muito limitada no tempo já que os solos ficam cada vez mais estéreis e ganham uma couraça ferruginosa. A queimada destrói a matéria orgânica existente no solo, matando os microorganismos e favorecendo a migração dos minerais de ferro e alumínio para a superfície, criando uma carapaça designada por laterite. As laterites são bastante comuns nos solos com climas tropicais e equatoriais, no entanto quando se recorre a técnicas de queimada a sua formação é acelerada devido ao elevar da temperatura durante o fogo. 


Ao fim de dois ou três anos, o solo está completamente estéril. A falta de utilização de métodos e técnicas adequados, nomeadamente adubos e irrigação, leva a que a terra se esgote rapidamente e a que os agricultores tenham que a abandonar. 


Neste tipo de agricultura as técnicas utilizadas são extremamente rudimentares, nomeadamente sacholas de madeira e ferro, sem cuidados de fertilização (para além das cinzas iniciais), adubos ou irrigação. A mão-de- obra utilizada resume-se à população da aldeia que corresponde a duas ou três famílias. Os campos agrícolas têm de ser capazes de produzir tudo aquilo que a aldeia necessita cultivando-se uma grande variedade de culturas (policultura) em regime extensivo. 
  


Quando os solos se esgotam, os agricultores voltam a fazer uma nova queimada nos terrenos circundantes aos anteriores. Com a continuidade dos mesmos processos e técnicas, os solos voltarão a esgotar-se e serão novamente abandonados. Esta situação vai-se repetindo até que os novos solos aráveis se situem a  grande distância da aldeia e não seja praticável fazer esta deslocação todos os dias. Quando isso acontece, as populações mudam a aldeia e iniciam uma nova fase noutro local. 


Apesar do crescimento urbano a que se assiste nos países africanos, a verdade é que a agricultura itinerante de queimada continua a ser praticada nas áreas mais rurais do Senegal, especialmente no interior sul. Quem percorre o país vê frequentemente as populações a atear fogo aos matos. Não são incêndios florestais; São técnicas agrícolas ancestrais que permitiram às populações sobreviverem às condicionantes naturais de um continente de terra vermelha. 


  

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