Deserto de Dasht-e-Kavir

Gelo e fogo...

Quando a paisagem é dominada pela presença do gelo cortante, ou pelas pedras e areia escaldante, o planeta revela o seu lado mais selvagem, mais inóspito, mais parecido com o que terá sido antes da vida aparecer. É como se estivéssemos noutro planeta... E a beleza é esmagadora. Porque as forças que moldaram estas paisagens estão para além da nossa compreensão, estão muito mais além da escala de tempo de uma vida humana, sentimo-nos pequenos, insignificantes perante tal espectáculo. E é verdadeiramente um privilégio poder estar nesses lugares, presenciar a natureza em bruto, nem que seja por breves instantes.


Estou dentro de um carro há várias horas, percorrendo rectas sem fim de uma estrada que parece não ter destino. As placas que passam só indicam as distâncias para localidades que já estão perto, não dando a mais pequena ideia do que está mais além. De vez em quando, uma ligeira curva, para dar vez a mais uma extensa recta. O que vejo à volta é magnífico. Deserto rochoso, com montanhas de escarpas acentuadas e arestas ponteagudas a ladear os vales por onde a estrada corta a paisagem. Vou em direcção à borda do deserto ainda mais deserto, ali onde até a vegetação rasteira perde o seu combate com o terreno e dá lugar apenas a rochas e areia. Mas até onde vai a vegetação, também vai a vontade do homem em sobreviver, em viver com aquilo que a terra dá, e não mais. Criadores de camelos e agricultores vivem no limite, no seu limite e no limite até onde a vida pode ir. Mais além, está algo que o homem só pode experimentar de passagem, como quando olhamos para o sol. Um vislumbre apenas, um momento em que a natureza se nos revela na sua nudez estonteante...


Nos desertos, não há forma mais estranha e visão mais magnifica do que as dunas de areia. Que forças intemporais estão por trás da transformação de rochas e montanhas em minúsculos grãos? Que vontade os encaminha para estes lugares, para se juntarem e ondularem ao sabor do vento que passa? Que mão carinhosa os mantém em formação contra o tempo que passa?
Caminho em direcção ao topo de uma duna, para ver mais além. Os pés descalços afundam-se e deslizam, e recuo um passo para avançar dois. As distâncias parecem tão curtas, os lugares parecem já ali, mas a natureza não se entrega facilmente aquele que a quer ver... Finalmente no topo, vejo as línguas ondulantes de areia sucederem-se até ao horizonte, onde se vêem mais montanhas. A cor da areia vai mudando conforme o sol vai descendo, ou espreitando com mais fulgor por entre as nuvens.
Sinto-me uma formiga que caminha deixando pequeninas pegadas que amanhã já cá não estarão.

Verdadeiramente, esta paisagem não é para homens... Se o Olimpo existe, deve ser algum tipo de deserto, ou então um campo de gelo. Mas foi aqui, na estrada que vem de Yazd, mais além da localidade de Bafq, algures na borda do deserto de Dasht-e-Kavir, que tive a fortuna de ver a morada dos deuses...

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