Uma escapadela até às Montanhas de Rila

Está um frio cortante. Há neve nas vertentes e o gelo cobre as estradas nas montanhas de Rila. Estávamos em Sófia e decidimos que não nos poderíamos ir embora da Bulgária sem visitar o seu maior parque nacional - Rila. Em pleno inverno é impossível arranjar pessoas suficientes para integrar uma tour organizada; assim juntamo-nos a um japonês e arranjamos um carro no hostel que nos levará a explorar as montanhas de Rila.
O parque nacional localiza-se a cerca de 100km de Sófia e em cerca de duas horas alcançamos o nosso destino. Pelo caminho atravessamos uma Bulgária cinzenta e triste.
O Parque Nacional de Rila está coberto de pinheiros macedónios e abunda a vida selvagem, nomeadamente ursos e lobos. O percurso mais popular é o Trilho dos Sete Lagos que percorre uma área de lagos glaciares a cerca de 2500m de altitude. Face ao tempo que tínhamos disponível não foi possível fazermos este trekking (algo que ainda não digeri muito bem). Tivemos que nos contentar com um pequeno percurso pela reserva florestal até alcançar a Capela de St. Ivan. 
O percurso leva-nos por uma caminho gelado, coberto de neve e, entre escorregadelas e quedas, lá alcançamos a pequena capela isolada na floresta.


Esta pequena capela foi construída ao lado da caverna onde St. Ivan se refugiou para escapar ao "declínio da moral da sociedade". Apesar de a capela estar fechada, a caverna ostenta algumas velas e papéis escritos pelos peregrinos. No topo da escura caverna existe uma abertura na rocha. Diz a lenda que só as pessoas com corações puros conseguem subir por essa abertura e passar para o outro lado. Puros ou não, os nossos corpos passaram mais este desafio.

Venerado pela sua sabedoria e capacidade curativa, o eremita que viveu na caverna inspirou multidões que em sua honra criaram o Mosteiro de Rila, o local mais visitado em toda a Bulgária. Milhares de peregrinos rumam anualmente ao mosteiro que se ergue nestas montanhas desde o século X.



Durante cinco séculos, o mosteiro prosperou graças ao apoio de inúmeros monarcas búlgaros, no entanto, no período Otomano, o mosteiro foi parcialmente destruído. Neste período alguns monges desempenharam aqui um papel determinante para a manutenção da língua, cultura e história deste país. Hoje, é o símbolo da resistência e da perseverança búlgara, já que é rodeado por uma muralha de 20 metros de altura. No entanto, nem esta muralha o salvou de um incêndio que praticamente o destruiu no século XIX. Do edifício original resta apenas a Torre Hreliova. Outrora centenas de monges habitavam este local; hoje apenas nove continuam por cá.
A Igreja da Natividade, edificio central do complexo, é a maior igreja-mosteiro da Bulgária e exibe no exterior frescos requintados e incrivelmente preservados. Domos, arcadas e colunas estão adornados por belos murais que retractam episódios da bíblia. Não é necessário entrar no interior da igreja para ficar boquiaberto.


No entanto, uma vez lá dentro, a igreja exibe uma majestosa Iconóstase esculpida em madeira coberta por folha de ouro com 10 metros de comprimento.  Uma arca de prata guarda a mão esquerda de St. Ivan. Conta-se por aqui que no século XVI, para permitir a sobrevivência económica do mosteiro, a mão direita foi enviada para a Rússia.    

Ao final da tarde o carro regressa pelas estradas geladas a caminho de Sófia. Para trás ficaram os magníficos murais coloridos do mosteiro. O aspecto cinzento deste país parece mais intenso junto da capital. Será do Inverno?

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