Tierra del Fuego


A Terra do Fogo está separada da América do Sul continental pelo estreito de Magalhães, tendo este sido navegado pelo explorador português durante 27 dias do mês de Novembro de 1520. Chamou-lhe "Terra do Fogo" devido aos numerosos fogos que observou ao longo da costa, sinais de aviso de uma tribo indígena para outra de que algo invulgar se aproximava... O arquipélago consiste numa ilha principal, a Isla Grande, e um grupo de ilhas mais pequenas, e divide-se igualmente entre a Argentina e o Chile, correndo a fronteira rectilíneamente desde o Estreito, a Norte, até ao canal Beagle, a sul.


Tínhamos dois dias para explorar a zona circundante de Ushuaia. Decidimos dedicar o primeiro ao Parque Nacional Tierra del Fuego, uma área protegida de cerca de 700 quilómetros quadrados, cuja entrada se situa a poucos quilómetros a oeste da cidade. O acesso ao Parque é por estrada ou no "Tren del Fin del Mundo", um comboio turístico de linha estreita que segue a linha do antigo comboio usado para levar os prisioneiros para a floresta para trabalhos forçados. Como este comboio tem só um trajecto de poucos quilómetros e é super caro, decidimos ir de autocarro. No Parque, numerosos trilhos percorrem a área, podendo os visitantes apreciar a paisagem multi-colorida de vales, lagos e montanhas. Escolhemos o sendero costeiro, que nos levaria até ao centro interpretativo do parque. O céu estava nublado e só por breves instantes o sol se atrevia a espreitar por entre as nuvens. Pelo caminho, reinava uma sensação de paz e de equilíbrio. Vimos leões marinhos a nadar junto à costa, várias espécies de aves, uma raposa curiosa pela nossa presença e uma família de cavalos selvagens, junto da qual passamos debaixo do olhar atento do macho. Aqui, parece que a mão do Homem ainda não chegou... Quando chegamos ao centro interpretativo, que explica como viviam os povos indígenas que povoavam esta região, almoçamos e decidimos explorar parcialmente dois outros trilhos. Um deles levou-nos a um parque de campismo (que só funciona no verão), junto a um lago da água de cor esverdeada, rodeado por montanhas de cumes nevados. Nem o vento gelado, ou o céu cinzento, diminuíram a sensação de estarmos perante uma paisagem belíssima, digna de figurar num postal da Terra do Fogo. O outro trilho serpenteava por entre lagos pequenos que salpicam a paisagem, e que deram mais oportunidades para fotos, mas... faltava o céu azul! Fazia-se tarde, estava frio, e regressamos ao centro para apanhar o autocarro de regresso. Este ainda fez um percurso que nos levou até ao término da Ruta Nacional N3, com mais de 3000 km de comprimento, e que liga as províncias de Buenos Aires e Terra do Fogo.



O dia seguinte estava destinado à visita ao Glaciar Martial, um glaciar de montanha situado acima de uma pista de ski (que só funciona no Inverno) e do qual se tem vistas panorâmicas sobre a cidade e o canal Beagle. Teríamos de fazer o percurso de táxi até ao início do teleférico da pista e daí... sempre a subir (a pé)! O problema é que de manhã chovia forte em Ushuaia, com um vento frio à mistura. Não se previam boas condições nas montanhas acima de Ushuaia... Para descargo de consciência, lá apanhamos o táxi, que depressa começou a apanhar queda de neve na estrada. Iniciamos então a caminhada e o tempo começou gradualmente a ficar melhor. Depois de passarmos o término do teleférico, e entrarmos no vale, a neve parou. Mas a subida começou a ficar mais íngreme, e o tempo piorou outra vez. Com muito esforço e cuidado, pois não tínhamos crampons para andar na neve e gelo, lá chegamos à placa que dizia "Usted está viendo el Glaciar Martial". Mas Glaciar... Nem vê-lo! O tempo estava super nublado, nevava com alguma intensidade, e não se vislumbrava esperança que o céu clareasse. Assim, depois de algumas fotos, decidimos descer. Mas quando vínhamos novamente a passar o teleférico, rapidamente as nuvens começaram a dissipar, o céu ficou azul e o sol brilhava sobre os cumes gelados! O glaciar, esse já não o podíamos ver, mas ainda pudemos gozar de uma vista panorâmica sobre a cidade, o canal Beagle e as belas cores outonais nas montanhas em redor. Não se perdeu tudo...




No dia seguinte, dissemos adeus a Ushuaia, e partimos num autocarro às 5 da manhã, para atravessar a parte argentina da isla Grande, passar a fronteira para o Chile, cruzar o Estreito de Magalhães de ferry, chegar a Punta Arenas e finalmente apanhar outro autocarro até Puerto Natales. 15 horas de autocarro, atravessando as extensões imensas da Terra do Fogo, de tundra gelada, com uma pequena vila de muitos em muitos quilómetros. Isto sim, já é viajar! E ao passar o estreito, não pude deixar de imaginar o que pensariam aqueles homens que navegaram este estreito há quase 500 anos... Se hoje esta paisagem nos impressiona pela sua beleza, nos esmaga pela sua imponência, e nos faz sentir pequeninos, como seria então, numa altura em que esta era mesmo a região do fim do mundo? Independentemente das motivações anteriores, e de tudo o que se passou a seguir, temos de reconhecer naqueles homens, e principalmente no seu líder, uma força de vontade notável e, no meu íntimo, senti uma ponta de inveja por aqueles que andaram "por mares nunca de antes navegados". É que o desconhecido, intimidante e assustador, é aquele que mais nos fascina. E nada melhor do que as palavras do grande poeta para descreve-lo:
"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
Lusíadas, Canto I, estrofe 106

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