Puerto Williams - O Mundo do Fim do Mundo

Estou em Puerto Williams e “O mundo do fim do mundo”, o livro de Luís Sepúlveda, espera-me do outro lado do Canal Beagle. Chego a Puerto Williams, no Chile, a localidade mais austral do planeta, depois de dois dias a bordo dum cargueiro da Transbordadora Austral Broom, desde Punta Arenas. Desde que li o romance “O mundo do fim do mundo”, quando andava na faculdade, que desejo conhecer a Terra do Fogo e os confins austrais do planeta. Sabia que viria aqui, a Punta Arenas, onde a história do livro tem inicio, e tal como a personagem do romance, que luta contra a caça furtiva às baleias, também eu ambicionava partir num barco pelo estreito de Magalhães e percorrer o Canal Beagle na expectativa de avistar as baleias austrais.Puerto Williams encontra-se isolado do restante território chileno e é possivelmente um dos locais povoados mais remotos do planeta. A povoação só pode ser alcançada por avião (meio de transporte que me recuso a utilizar nas viagens) ou por barco. As ligações marítimas ocorrem uma vez por semana e dependem das condições atmosféricas e do estado do mar.
Tentei que tudo batesse certo para poder chegar a Ushuaia no dia 15 de Abril e me encontrar com o Rui. Sendo assim, apanhei o cargueiro a 12 de Abril com destino a Puerto Williams. A bordo, para além da tripulação, sigo eu, a Julia, uma alemã, e dois carabineros que trabalham numa base militar chilena na fronteira com a Argentina. Manuel é o chileno que cozinha para nós e nos prepara bifes ao pequeno almoço e comida de 3 em 3 horas.
Mal saímos de Punta Arenas uma baleia austral segue ao lado do barco. É mágico. A noite escura, as luzes da estrelas e eu tentando ver os instantes em que a baleia se exibe por entre as águas. As noites são tudo menos confortáveis. Dorme-se sentado numa área semelhante a um autocarro. Estamos todos juntos e o espaço é pouco aquecido. Felizmente consegui um lugar em frente ao aquecedor e esse problema ficou resolvido.
Pela manhã, Manuel acorda-nos às 6h para o pequeno-almoço: bifes de cebolada. Vida de marinheiro! Depois do pequeno-almoço segue-se o nascer do sol no Estreito de Magalhães. Os raios de luz penetram o céu nublado e incidem sobre os ilhéus. Tirando o vento gélido que me bate na cara diria que o cenário é perfeito. O dia passa e o barco percorre o estreito, saí para o Pacífico e volta a entrar nos canais, desta vez para percorrer o Canal Beagle. Mais uma noite mal dormida. O corpo pede-me uma boa cama. Mas o esforço compensa. São cinco e meia da manhã quando chego a Puerto Williams, “o mundo do fim do mundo”. No céu uma mistura de estrelas e o sol a nascer. As cores outonais das folhas das árvores brilham com os primeiros raios de sol. Puerto Williams exibe um céu azul, as suas pequenas casas de madeira, os barcos coloridos no porto e as montanhas com cumes nevados. Esta pequena povoação, com cerca de 2000 habitantes, situa-se na Isla Navarino, a primeira ilha pertencente ao território da Antáctida. Do outro lado do canal Beagle fica Ushuaia e a cordilheira Darwin com todos os cumes nevados. Uma vista que até hoje só tinha contemplado nos postais. Sinto-me uma afortunada. Cheguei ao “mundo do fim do mundo”. O Rui e o livro do Sepúlveda esperam-me do outro lado. Não resisti e pedi ao Rui que mo trouxesse. Quero relê-lo aqui. Aqui, onde tudo faz mais sentido.

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