No rasto de Fernão Magalhães - Uma reflexão no Estreito de Magalhães (Punta Arenas)

Fernão Magalhães é, para mim, o maior explorador e navegante de todos os tempos. Mal amado por portugueses e espanhóis, ao navegante nunca lhe foi dado o seu devido valor. Qualquer pessoa que leia a sua biografia não fica indiferente à bravura, determinação e perserverança deste homem. Nenhum outro teria enfrentado os perigos naturais, as conspirações, os motins, as provações a que foi posto durante os trinta e seis meses em que circum-navegou o globo.
Apesar de não ter terminado a sua viagem, conseguiu provar, ainda antes de morrer que a circum-navegação do globo era possível, já que o seu escravo, Henrique (nome católico), um filipino que adquiriu quando combatia nas Indias Orientais regressou às suas ilhas, tornando-se, ele sim, a primeira pessoa a circum-navegar a Terra.

As aventuras e desventuras da viagem de Fernão Magalhães, assim como as características do homem, foram preservadas no diário de Pigafetta, um escritor/geógrafo italiano que pagou do seu próprio bolso para integrar esta viagem. Foi dos poucos que regressou com vida a Sevilha.

Magalhães, Pigafetta e Henrique partiram de Sevilha, juntamente com mais 231 homens e cinco naus (San António, Victória, Trindade, Santiago e Conceição) rumo ao desconhecido.
Diz-se que Magalhães sabia da existência de uma passagem a sul do paralelo 45ºS, já que havia trabalhado para a Coroa Portuguesa em Lisboa. Segundo alguns historiadores, uma expedição portuguesa já teria encontrado uma passagem a sul do continente americano mas como esses mares não podiam ser navegados pelos portugueses (devido ao Tratado de Tordesilhas) essa informação foi mantida em segredo.

Munido de tal informação (ou não), a verdade é que Fernão Magalhães apresentou a proposta para circum-navegar o planeta à coroa portuguesa que prontamente a negou. Magalhães há muito que não era querido pela coroa de D. Manuel I. Sobre ele recaiam acusações de comércio ilegal com os mouros em Marrocos.

Não desistindo no primeiro embate, Magalhães renuncia à nacionalidade portuguesa e parte para Espanha onde casa com a filha de um oficial de Sevilha. Esta união iria abrir-lhe as portas da coroa de Carlos V, de Espanha.

Com base nos cálculos do Cartógrafo e Cosmógrafo Rui Faleiro, Magalhães desenvolve um projecto de circum-navegar a Terra. Para tal, reuniu 234 homens, cinco naus e vários víveres que lhes permitiria sobreviver em alto mar até alcançarem terra firme e puderem reabastecer.

Desde que constituiu a sua tripulação o projecto estava condenado ao fracasso. Uma parte considerável dos seus homens era portuguesa e os ofíciais exigidos pela corte espanhola não viam isso com bons olhos. Magalhães colocou um homem de confiança em cada uma das naus mas os oficiais espanhóis tentavam boicotar os seus trabalhos.

Durante a travessia do Atlântico, a viagem processou-se sem problemas de maior mas quando alcançaram a costa sul-americana os problemas começaram. Enganado pela incomum largura do rio da Prata perderam ai bastante tempo. Os oficiais espanhóis desacreditavam o projecto e tentavam convencer Magalhães que as suas ideias eram infundadas. Armado de ideais e determinação nunca desistiu e testou todas as reentrâncias do mar no continente em busca da tal passagem a oeste.

O inverno Patagónico apanhou-os e as naus tiveram que se refugiar primeiro em Puerto Deseado e depois na Baía de San Julian, onde viriam a passar cinco meses de inverno. Aí controlou o primeiro motim e perdeu a nau Santiago numa tentativa para encontrar a tão desejada passagem.

No final do inverno as quatro naus dirigem-se para o estreito. Um conjunto de baías, fiordes e canais confundem Magalhães. Tem que fazer várias tentativas para alcançar a passagem certa. Numa dessas tentativas frustradas regressa e dá conta que a San António já lá não está. Os oficiais espanhóis controlaram o capitão, primo de Magalhães, e levaram a nau de regresso a Espanha. Menos duas naus e sem parte dos viveres não deu por terminada a sua viagem. Atravessam o estreito que divide a norte a Patagónia (terra com habitantes gigantescos e de pés muito grandes a que Pigafetta chamou Patagões) e a sul a Terra do Fogo, já que se viam grandes fogueiras que a população indigena fazia para se aquecer. Dois patagões foram capturados para serem levados para estudos.
Com apenas três naus atravessam o estreito e alcançam o oceano. Este novo oceano pareceu tão calmo a Magalhães que o baptizou "Pacífico", em contraste com a agitação que passou para atravessar as águas do estreito que viria a receber o seu nome.
Sem as provisões necessárias para atravessar o Pacífico, a tripulação começou a sucumbir à fome e às doenças. Os dois patagões que foram capturados na Argentina foram os primeiros a morrer. San António tinha levado grande parte dos mantimentos de volta a Espanha. Esse, por si só, já era um problema mas o maior foram os erros de cálculo realizados por Rui Faleta. Segundo o cosmógrafo, o Pacífico seria inferior a Atlântico e a sua travessia seria curta. A realidade mostrou-se bastante distinta. A tripulação foi obrigada a comer tudo o que havia no barco, inclusive os materiais em couro. Quando alcançam Guam conseguem efectuar trocas comerciais e o problema dos mantimentos fica resolvido.

É talvez aqui que Magalhães começa a ficar vulnerável. Talvez o excesso de confiança ou a noção de que o dever estava comprido. Quando chega às Filipinas descobre que a circum-navegação foi possível. O seu escravo fala o mesmo idioma dos nativos. A comunicação é possível. Aqui Magalhães terá, quanto a mim, pensado que deus actua através dele e aí cometeu os seus erros. Tentou evangelizar os povos das Filipinas e alargar os objectivos da sua expedição. Se nas primeiras ilhas as coisas correram relativamente bem, o mesmo não aconteceu na ilha de Mactan. Aqui, um pequeno rei-guerreiro tinha a fama de ser bravo e inquebrável. Magalhães substimou o adversário. Lançou-se pessoalmente e com um grupo restrito de soldados ao encalço do rei. Mal chegou a desembarcar na praia. Foi morto e o seu corpo retalhado e exibido em espetos. O grande navegador perdeu a vida num episódio perfeitamente marginal ao grande projecto.

A viagem não terminou. As naus restantes lançaram-se aos mares e tentavam alcançar Espanha. Esta tarefa era bastante dificil já que a costa do Indico e do Atlântico era controlada pelos portugueses e as naus espanholas não podiam navegar estas águas. Os militares portugueses tinham ordens para destruir as naus da frota de Magalhães mal as avistassem. Assim, viajar com três naus era impossível. Não havia homens suficientes. A nau Conceição foi incendiada e Victória e Trindade iniciaram a viagem de regresso.

Nas Molucas foram várias as tentativas de envenenamento dos tripulantes por parte da populações locais sempre que tentavam ir a terra. O regresso mostrava-se cada vez mais dificil. Trindade estava muito degradada. Teve que ficar retida para reparações nas Molucas. Também esta nau viria a sucumbir às mãos dos portugueses que a capturaram.

Sendo assim, Victória, a nau mais pequena da expedição dobra sozinha o Cabo da Boa Esperança e consegue fazer sem paragens a travessia até Cabo Verde. A maioria dos tripulantes morre de fome e sede. É impossível continuar até Espanha. Tentam abastecer em Cabo Verde mas mais uma vez são capturados por portugueses e a nau tem que fugir e deixar alguns tripulantes à mercé dos soldados rivais que os matam na praia.

A 6 de Setembro de 1522, Victória chega a Sevilha com 18 tripulantes, inclusive Pigafetta, o escritor de cujos relatos perduram as aventuras desta travessia. Magalhães ficou nas Filipinas mas o seu nome viaja pelo mundo. Baptizou grande parte dos locais mais austrais do planeta e a NASA homenegeou-o com um satélite que ostenta o seu nome no sistema solar.

Eu, orgulhosamente, tiro uma fotografia debaixo da sua estátua em Punta Arenas, a cidade chilena no meio do Estreito de Magalhães. Estou junto ao maior explorador de todos os tempos.

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