Uma passagem marcante por El Bolsón

Qual a possiblidade de um argentino me citar Fernado Pessoa numa povoação com 27000 habitantes? E dessa mesma pessoa falar português? E, para grande coincidência, ser professor de Geografia? Não há coincidências...
Hippies, músicos, rastas, gente colorida, sorrisos e gargalhadas e muita animação é o que marca esta pequena vila no norte da Patagónia. Quando li nos guias que El Bolsón mantém-se como retiro hippie desde os anos 70, decidi que tinha que visitar este lugar. Infelizmente, o tempo que lá passei, uma dia e meio, não foi suficiente para explorar os arredores. Limitei-me a conhecer a povoação, imbuir-me do espírito hippie e a trazer algo mais comigo.
El Bolsón é possivelmente o local economicamente mais em conta da Patagónia daí que para aqui afluam grande quantidade de mochileiros. Eu não seria uma excepção. Com a tenda na mochila resolvi usufruir dos luxos dum quartinho no camping Refúgio Patagónico. Estava demasiado cansada para montar a tenda e precisava de dormir bem. Afinal, a diferença de preço era apenas de 4€!
Comecei a minha visita pela Feira Artesanal que aqui se realiza duas vezes por semana. Que loucura. Sinto-me transportada para Woodstock! Roupas malucas, tranças, rastas, carteiras, muitas bujigangas... quase me sinto tentada a quebrar o meu budget. Resisto. Só não resisto às empanadas de "jamon e queso" e ao sumo de framboesa! Apesar do turismo estar a crescer, a verdade é que os mochileiros procuram essencialmente o contacto com a natureza, o camping e os trekkings fora da povoação; isto deixa a economia local muito pouco dependente desta actividade. A silvicultura e as chacras (pequenas quintas) continuam a ser a base da economia. No entanto, o turismo conseguiu dinamizar a produção de cerveja artesanal, hoje um marco na vila.
Face ao tempo que lá passei tive que fazer opções. Diziam-me que o lago Puelo era muito bonito, assim como o Bosque Tallado e as vistas do Cerro Piltriquitrón. A verdade é que descartei todas estas opções. Vi num guia que era possível fazer um baptismo de vôo numa avioneta sobre as povoações e o lago. Foi isso que resolvi fazer. Dirigi-me ao Aeroclube El Bolsón, que não é mais que um descampado, e aí conheci o Rafael, um bombeiro, que telefonou para o director do aeroclube e me marcou um voo para as 18h. Acertamos o preço pelo telefone. O voo custa 250 pesos e pode ser dividido por 3 pessoas.
Como estava sozinha teria que pagar a totalidade. Depois de "chorar" um bocadinho lá consegui baixar para 200 pesos (menos de 40€). Infelizmente, não consegui encontrar mais ninguém para dividir o voo. Sendo assim, lá fui eu, com o Pablo, o piloto, sobrevoando os céus de El Bolsón. A principio assustei-me um bocado. Os ventos eram fortes e a avioneta, de pequenas dimensões, abanava bastante. Este mesmo vento impossibilitou o trajecto sobre os lagos glaciares, o que para mim foi um "balde de água fria". No entanto, a experiência foi interessante e permitiu um vista panorâmica sobre esta área da Patagónia.
No final do vôo tinha tomado uma decisão. Já andava há bastante tempo com um desenho no bolso para tatuar. Algo que marca o meu percurso de vida e que caracteriza aquilo que sou. Assim, aproveitando a onda hippie de El Bolsón, acrescentei algo mais à minha pessoa.
De regresso ao Refúgio Patagónico passei uma noite super agradável na companhia de duas espanholas, dois jovens de Buenos Aires, um professor de Geografia de Perito Moreno e um jovem norte-americano. Curiosamente o professor de Geografia falava português e inclusive citou Pessoa: "Lisboa manda, Porto trabalha, Coimbra pensa e Braga reza."
Na manhã seguinte, depois de um despertar solarengo e silencioso, rodeada por montanhas geladas, peguei na minha mochila e percorri as ruas de terra da povoação até ao terminal de bus. Estava na hora de partir. Para trás deixei um lugar que ficará para sempre marcado em mim. Na vida, não há coincidências...

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