Morre lentamente quem não viaja - Uma lição de Pablo Neruda no Chile

Galardoado com o Prémio Nobel da literatura em 1971, Pablo Neruda é reconhecido mundialmente pela sua eloquência e sábias palavras poéticas. Viajou pelos quatro cantos do mundo enquanto cônsul e senador do Chile, mas foi em La Isla Negra, junto com a sua amada Mathilde, que viveu os melhores anos da sua vida. Casado duas vezes, só viria a encontrar o amor quando conheceu Mathilde e a reencontrou anos mais tarde em Capri (Itália). Manteve uma relação extra-conjugal durante alguns anos na chamada La Chascona, a sua casa de Santiago. Uma vez divorciado e casado com o amor da sua vida, Neruda muda-se para La Sebastiana, a casa em Valparaíso, e mais tarde para La Isla Negra, a que foi o seu verdadeiro lar.  
La Sebastiana


La Isla Negra

Foi em La Isla Negra que escreveu grande parte dos seus livros, inspirado pelas ondas, cheiros e barulho do Pacífico. Pablo tinha medo de navegar mas tinha uma paixão pelo mar. A sua casa assemelha-se a um barco e o "marinheiro" nunca abandonou o seu posto e se lançou ao mar alto. Preferiu contemplar o mar da janela do seu quarto, onde viria a falecer de cancro poucos dias depois do golpe de estado de 11 Setembro de 1973, perpetuando a ditadura de Pinochet. Fervoroso marxista, Pablo Neruda foi candidato às eleições presidenciais do Chile nos anos 70 mas desistiu da sua candidatura para que Salvador Allende vencesse. Os seus restos mortais descansam ao lado dos de Mathilde no jardim da sua casa em La Isla Negra.


Morre lentamente quem não viaja

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco, e os pontos sobre os i's em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo , não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda
 


Fundação Pablo Neruda - http://www.fundacionneruda.org/index.php

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