Quebrada de Humahuaca

A 90 km de Salta, o rio grande de Jujuy atravessa uma quebrada magnífica num percurso de mais de 200 km. Declarada Património Natural e Cultural pela UNESCO, a quebrada atrai cada vez mais visitantes. Percorrendo o vale e serpenteando sedimentos, o rio atravessa várias povoações andinas de montanha. A primeira, e talvez a mais emblemática, é Purmamarca. Aqui, uma vertente exibe um leque de sedimentos e rochas com várias cores criando a maior atracção turística da quebrada: o “Cerro de las 7 colores”. Os viajantes percorrem centenas de quilómetros para ver este fenómeno da natureza e passar aqui uns dias relaxados. Purmamarca é uma aldeia bastante pequena onde o turismo foi crescendo e com ele vieram os vendedores de artesanato. Maioritariamente bolivianos (já que a Bolívia está a meros 80km de distância), os emigrantes concedem a esta área da Argentina um ar bastante diferente do resto do país. Nas ruas vende-se artesanato local e boliviano. Os restaurantes vendem empanadas e pratos de lama. Um pouco mais a norte, Tilcara, uma outra aldeia, exibe ruínas de uma cidade pré-colombiana (Pucará) bem preservada no topo de uma colina sobranceira ao vale. As vistas são magníficas. A quebrada exibe as suas cores matinais e os numerosos cactos que “povoam” o local conferem um ar bastante árido à paisagem. Estes cactos foram, durante a guerra da independência, vestidos pela população local para assustar os exércitos chilenos e os fazer crer que o número de argentinos nesta área do país era muito maior do que o era na realidade. Cruzando o Trópico de Capricórnio, materializado no terreno por um relógio de sol, sigo viagem em direcção a Humahuaca, a aldeia que baptiza a quebrada.
Esta é a maior povoação do vale e a sua igreja é a principal atracção. Com um altar em ouro, atrai bastantes visitantes de toda a Argentina. Almoço num restaurante local e experimento as delícias regionais: humitas, estufado de lama e queijo de cabra com doce de coyote (xila). Completamente satisfeita vou percorrendo as ruas da aldeia. Aparentemente poderia estar em qualquer povoação boliviana e até as pessoas que encetam conversa comigo são originárias desse país. Está na hora de regressar, mas não sem antes fazer uma paragem em Uquía, um lugar bem pequeno com apenas uma capela e meia dúzia de habitações. No entanto, esta capela conserva, para além de um altar em talha dourada, uma colecção de pinturas de soldados criados por artistas da escola cuzquenha. Cá fora, as crianças brincam numa praça caiada de branco e tentam vender quinoa, um cereal típico boliviano. Regresso a Salta, atravessando a quebrada e a sua magnífica exibição de cores. A determinada altura passo por uma área designada “palete do pintor”. É fácil perceber porquê. A resposta está exposta na paisagem. Com uma pequena paragem em San Salvador de Jujuy, continuo o meu caminho e alcanço Salta já no final do dia.

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