FNAC marroquina...

Foi com bastante curiosidade que embarquei, juntamente com a Carla, nesta pequena grande aventura por terras marroquinas. Isto porque tenho um grande interesse pela cultura islâmica, nas suas diferentes manifestações, quer sejam estritamente do foro religioso, quer as sociais, culturais e artísticas. Ao longo deste blog, a Carla já foi discorrendo, e muito bem, sobre as diferentes características desta cultura. Por mim, quero aqui apenas reflectir um pouco sobre o aparente conflito de civilizações que se continua a desenrolar neste séc. XXI, entre o que podemos chamar a civilização ocidental, de raiz cristã, e a civilização árabe, de raiz islâmica.
Aquando da nossa viagem pela Índia, terra de todas as culturas religiosas, visitámos a província de Jammu e Caxemira, onde estivemos em várias cidades de população predominantemente muçulmana, nomeadamente Shrinagar, estabelecendo o nosso primeiro contacto com a cultura islâmica. Na China, também tivemos um contacto breve com a esta cultura em Xi’An. No entanto, nunca tínhamos estado, até agora, num país oficialmente islâmico. Foi com esse desejo, até para servir como «treino» para a viagem de Verão por terras do Médio Oriente, que decidimos visitar Marrocos.

Admito que parti do Porto com alguns preconceitos…Não sei se lhes devo chamar assim. São mais sentimentos baseados nos meus gostos pessoais. Por exemplo, uma coisa que me custa suportar é o espírito mercantilista que domina esta cultura. As cidades são basicamente mercados gigantes, em que praticamente tudo é fabricado e comercializado nas ruas. Artesãos fabricam nas traseiras das casas o que é vendido à porta dessas mesmas casas. Muito barulho, muita confusão, muitas pessoas… Tudo coisas que me custa suportar.
Só uma coisa faz parar o acto comercial. O momento da oração. Em Marrocos, desde as ruas desertas da Medina de Fez à Sexta à tarde, passando pelos populares ajoelhados à porta de uma mesquita na caótica praça Jamah El-Fna em Marraquexe, não faltaram testemunhos da dedicação a Alá deste povo.

Outro aspecto que me é particularmente caro é a questão do conhecimento. Em Marrocos pude constatar, admito que com um certo espanto, que não há qualquer produção literária que não seja religiosa. Filosofia, política, geografia, história, matemática, física… NADA! As poucas livrarias que vi em toda a viagem só tinham livros religiosos, pelo menos era o que aparentavam ser, pois não sei ler árabe. Livros escritos numa outra língua, nem pensar! A única livraria com livros fora deste padrão que consegui encontrar foi a auto-denominada (e bem!) “primeira livraria de Marraquexe”, a FNAQUE! Um nicho minúsculo, perdido no meio de um souq caótico, com meia dúzia de livros de carácter turístico, escritos em inglês. Foi o primeiro país que visitei em que senti a completa falta de divulgação de conhecimento. Quando regressámos a casa, fizemos escala em Madrid. Entre voos, ainda tivemos tempo de dar um salto à cidade, onde passei pelas livrarias “El Corte Ingles”, “Casa del Libro” e “Fnac”, onde estavam espalhados cartazes alusivos ao dia 23 de Abril, dia mundial do livro, quando algumas livrarias da cidade permaneceriam abertas toda a noite, com preços com desconto. Que contraste!
Porquê culturas aparentemente tão distintas? Porque somos tão diferentes? Seremos nós civilizados e eles bárbaros? Pensemos um pouco… O que sempre distinguiu os povos «civilizados» dos «bárbaros»? Evolução! Através do contacto, as diferenças esbatem-se, e quando a evolução de uns coincide com a regressão de outros, pode até ser que a barbárie conquiste a civilização.
Mas evolução em direcção a quê? Existe um fim natural e lógico para a evolução civilizacional? Não me atrevo a arriscar uma resposta. Mas podemos aplicar esta ideia a este conflito tão actual.
Sociedade civil completamente dominada pelos mercadores. Fervor religioso generalizado. Conhecimento confinado ao clero. Parece algo familiar?... Não, não tem de ser um país islâmico. É a Europa há 500 anos!
O Islão é 700 anos mais novo do que o Cristianismo. Imaginem-se na Europa há 700 anos. Não são os inquisidores, ordens religiosas e mosteiros de então, os mullahs e as madrassas de agora? Como será o Islão daqui a 700 anos? Como estarão os países do Médio Oriente em 2700 d.C.?
Chegará o dia em que as trocas comerciais nestes países serão feitas unicamente em centros comerciais e hipermercados, ordeiramente, longe da vista (e do coração)?
Chegará o dia em que todos os campos do saber se desenvolverão, com liberdade de expressão, libertos da tutela da igreja?
Chegará o dia em que a igreja se restringirá a um papel meramente dedicado ao ritual e crença e não interferirá (significativamente) nos assuntos dos Estados?
Sinceramente, não sei. Mas sei que esta diversidade civilizacional, apesar de causa de conflitos, é também a razão de termos um Mundo colorido e fascinante de se conhecer. Se um dia formos todos iguais e (admitamos) «civilizados», tenho a certeza que o Planeta será muito mais cinzento e que será muito menos interessante viajar e fazer blogs sobre o que se vê nessas viagens.

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