Um segredo bem escondido - Basílica de São Clemente


Um dos segredos mais bem guardados da Roma contemporânea é a Basílica de São Clemente. A poucos metros do Coliseu, situa-se uma das 18 igrejas que, se sabe, já terem existido no século I. Felizmente pouco visitada pelos turistas, este local foi um dos pontos altos da nossa visita a Roma.

São Clemente tem uma importância acrescida em termos históricos pois num edifício único mostra a sequência das épocas: exemplos de arquitectura romana em três níveis, desde a antiguidade clássica (a residência e o Mithraeum) à era cristã primitiva (basílica inferior) até à Idade Média tardia (a igreja superior).
Quando entramos na igreja somos recebidos por um pátio dianteiro com uma fonte. No interior, a igreja apresenta mosaicos fantásticos na nave e caríssimos pedaços de mármore, inseridos no piso por artistas de Cosmati. Rodeada em três lados por um pórtico, o tecto da nave principal é do estilo barroco e data do século XII. Colunas faustosas adornam as naves e são provenientes de outras igrejas destruídas das redondezas. Depois de explorar o interior da igreja e admirar o conjunto de mosaicos, descemos para um nível inferior descoberto por baixo da igreja actual.
Ao descer, entramos num primeiro nível de história. Uma basílica do século IV com duas naves e frescos antiquíssimos e maravilhosos. Segundo a lenda, o papa Clemente foi atirado ao Mar Negro com uma âncora amarrada aos pés, e os frescos «O corpo de São Clemente levado do Vaticano para a igreja de S. Clemente» e o «O Milagre no Túmulo de São Clemente» lembram esta história cristã. Ao que parece, estes frescos constituem uma obra-prima da pintura romana, já que estão relativamente bem preservados. No entanto, esta basílica terá sido destruída e o papa Pascoal II mandou construir a igreja actual sobre o terreno.
Continuamos e entramos num segundo nível de história. A basílica assenta sobre ruínas de uma residência romana, dedicada a São Clemente (papa de 88 a 97), cujo pontificado foi o terceiro depois de São Pedro. No interior desta residência existe um rio que corre canalizado pelas diversas divisões. Algo invulgar para nós, mas ao que parece, comum nas residências romanas. Após a sua destruição, depois da invasão normanda de 1084, o que resta pode ser visitado no piso inferior, redescoberto no século XIX, por baixo da basílica.
O Mithraeum, que se alcança por uma escada a partir da basílica inferior, é a parte mais antiga e data, possivelmente, do século I a III dC. Era originalmente um santuário ao Deus Mitra, cujo culto provêm da Ásia Central. No século III, este local terá sido um dos mais importantes na cidade de Roma. Há um altar no centro, bancos laterais, um relevo que mostra o Deus matando um boi primitivo (touro), sacrifício que era repetido pelos fiéis num ritual. As representações são bastante interessantes, com o Mitras a enfiar a adaga no touro, um cão e uma serpente que lambem o sangue que escorre e um escorpião a morder as partes genitais do touro. O Deus Mitra tem a cabeça virada para um corvo que lhe traz a mensagem do deus-sol Hélio que aparece no canto superior enquanto a deusa Lua ou Selene surgem no canto direito. Curiosamente, aparecem ainda duas divindades protetoras, Cautes e Cautofates, com tochas que simbolizam o nascer do sol e o crepúsculo.
Enquanto deambulamos pelos diferentes níveis debaixo da igreja actual sentimo-nos, literalmente, teletransportados no tempo. É uma sensação incrível já que apenas descendo meia dúzia de degraus "viajamos" séculos no tempo. E, por incrível que isto possa parecer, sentimos perfeitamente que estamos em épocas distintas. Uma das sensações mais incríveis, é quando visitamos a parte correspondente ao século I e pensamos que caminhamos terreno contemporâneo de Cristo. É, no mínimo, estranho!

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