No rasto de Bernini

Se algum artista marcou a cidade de Roma, o seu nome é Bernini. Natural de Nápoles, Gian Lorenzo Bernini (1598 – 1680) distinguiu-se como escultor e arquitecto, ainda que tivesse sido pintor, desenhador, cenógrafo e criador de espectáculos de pirotecnia. Foi, provavelmente, o maior escultor do século XVII e criou inúmeras obras de arte presentes em Roma e no Vaticano.


Gian Lorenzo Bernini

Uma das nossas opções (decididamente bastante acertada) foi seguir o rasto às magníficas obras do artista. Optamos por iniciar o nosso percurso pelas igrejas e basílicas onde estão esculturas de Bernini, e só numa fase posterior visitar as obras "armazenadas" em museus. E assim, lançamo-nos no encalço do artista!
  
Fonte da autoria de Bernini na Piazza del Triton

A criação de uma escultura tem sempre em mente o local a que está destinada. As grandes esculturas de Bernini foram concebidas para ornamentarem igrejas ou jardins e por isso a visita às obras no local tem outro significado e as esculturas tornam-se mais imponentes. Qualquer escultura de Bernini, que tenhamos visto, é cheia de sentimento e emana um conjunto de sensações que nunca tinha visto noutro artista até então.

Filho de um escultor de Florença Pietro Bernini, o artista começou muito cedo a trabalhar em Roma, ao serviço do papa Paulo V. Bernini apresenta na sua obra uma forte influência da escultura Grega e Romana em mármore, que conheceu nas colecções do Vaticano. Este facto permitiu-lhe um conhecimento profundo das obras de Miguel Ângelo. Uma das suas primeiras esculturas foi Sebastião, onde a influência de Miguel Ângelo está bem presente.

Naquela altura, nenhum artista conseguiria sobreviver sem um patrono. O Cardeal Borghese foi o seu primeiro patrono. Os seus primeiros trabalhos foram peças para decorar os jardins do cardeal: a Cabra Amalthea, o infante Zeus e um Fauno, Almas Danadas ou Almas abençoadas. Foi para ornamentar a vila do Cardeal que Bernini criou várias obras primas, nomeadamente os grupos escultóricos como o Eneias, Anquises e Ascânio fugindo de Tróia, de 1619. Esta obra descreve as três idades do Homem por três pontos de vista, baseada numa figura de um fresco de Rafael, e talvez refletindo o momento em que o filho consegue o papel do pai. Enéas, Anquises e Ascânio estão hoje expostas na Galeria Borghese, assim como muitos dos seus primeiros trabalhos, no entanto, infelizmente, não tivemos tempo para a visitar. Fica prometido que, voltaremos a Roma para colmatar esta falha!!

Outras das suas magníficas criações foram O Rapto de Proserpina (1621 - 1622), onde recria uma obra de Giambologna, com destaque para a recriação da pele feminina no mármore e, Apolo e Dafne (1622 - 1625) que mostra o momento mais dramático de uma das histórias de Ovídio, onde Apolo, o deus da luz, desafia Eros, o deus do amor, para um combate com armas, e, ferido por uma flecha dourada, apaixona-se por Dafne, uma ninfa de água, que fizera voto de virgindade. Dafne escapa de Apolo porque se transforma em loureiro. Bernini executa esta obra no mármore como uma vida se transformando numa árvore. O génio viria também a esculpir David, em 1624, um marco na história da arte, que mostra a fixação do barroco com o movimento. É muito interessante ver como Michel Ângelo mostrou a natureza heróica do David, ao passo que Bernini capturou o exacto instante em que ele se torna um herói. Em todas estas obras, realizadas em tamanho real, conjugadas com os bustos executados também neste primeiro período da sua actividade, Bernini cortou com a tradição de Miguel Ângelo, criando um novo período na história da escultura da Europa ocidental.

Mas, o Cardeal de Borghese é eleito papa, papa Urbano VIII, e Bernini passou a trabalhar muito intensamente, tanto em pintura como em arquitectura. Foi encarregado de construir uma estrutura simbólica sobre o túmulo de São Pedro, na Basílica de S. Pedro, em Roma. O resultado, soberbo, é o enorme e famosíssimo Baldaquino dourado construído entre 1624 e 1633. O baldaquino, uma fusão completamente original e sem precedentes entre escultura e arquitectura, é considerado o primeiro monumento verdadeiramente barroco, tendo-se tornado o centro da decoração projectada por Bernini para o interior da Basílica de S. Pedro. Na sua construção foram usadas vários quilos de bronze fundido retirado dos ornamentos do Pantheon. Ainda na basílica, Bernini decorou os quatro pilares que sustentam a cúpula, com quatro estátuas colossais, sendo que só uma delas é da sua autoria.

Basilica de S. Pedro
Baldaquino da Basílica de S. Pedro

Mediante o sucesso qua as suas obras atingiam, o escultor passou a acumular não só as funções de arquitecto de São Pedro como as do Palácio Barberini. As obrigações eram tantas que teve recorrer a assistência de outros artistas para o auxiliar.

As obras de Bernini apresentam aspectos bastante inovadores em túmulos e fontes. O túmulo de Urbano VIII é um dos melhores exemplos desta nova arte funerária, assim como a fonte de Tritão, na Praça Barberini (1642-1643), o é para estas obras.


Fonte do Tritão

Em 1646, o artista viria a sofrer um duro golpe que o fez cair, temporáriamente, em desgraça. As torres sineiras na fachada da Basílica de São Pedro criaram fissuras no edifício e tiveram que ser retiradas. Atravessando um periodo contorbado, o artista prosseguiu com as suas criações e produziu uma das suas obras mais espectaculares - a Fonte dos Quatro Rios (Fontana dei Quattro Fiumi), na Piazza Navona (1648 e 1651). A fonte representa os quatro principais continentes do mundo cortados por seus principais rios: Rio Nilo, em África; Rio Ganges, na Ásia, Rio da Prata, na América e o Rio Tibre, na Europa.
 
Fonte dos Quatro Rios - Piazza Navona

No mesmo período, Bernini realizou uma de suas obras primas -Êxtase de Santa Teresa (1645-1652). Nesta obra os valores estéticos e culturais representam um dos factos artísticos mais importantes do século XVII. Criada para ornamentar a Capela Federico Cornaro, na igreja de Santa Maria da Vitória, Bernini, em vez de representar um evento estático, organiza o espaço exíguo da capela como um cenário teatral, com os espectadores e a família do patrocinador, retratada a meio busto nos palcos laterais. Ao centro, a santa tem uma atitude totalmente sensual, representando a experiência mística de Santa Teresa de Ávila trespassada por uma seta de amor divino por um anjo. A beleza da obra deve-se ao uso da iluminação e da fidelidade da escultura, que lhe conferem sensibilidade. Bernini aplicava nas suas esculturas o uso de corpos alongados, gestos expressivos e expressões simples mas muito emotivas.


Êxtase de Santa Teresa -Igreja Santa Maria Vitória

Ao serviço do papa Chigi, Bernini projecta uma colunata elíptica no exterior da Basílica de São Pedro, uma intervenção urbanística e arquitectónica, um espaço dedicado às cerimónias públicas, que representa um abraço da igreja à totalidade de seu povo. O trabalho em São Pedro termina com a construção da Escada Santa, acesso oficial ao palácio Apostólico, e com a estátua equestre de Constantino.


Colunata da Praça de S. Pedro

Em 1657 começou o Trono de São Pedro, ou Cathedra Petri, uma cobertura em bronze dourado do trono em madeira do papa, que foi terminada em 1666, ao mesmo tempo que realizava a colonata.

Em 1665 viajou para Paris, aceitando finalmente um dos muitos convites de Luís XIV. Tendo ofendido os seus hóspedes, ao elogiar a arquitectura italiana em comparação com a francesa, os seus planos de remodelação do Louvre acabaram por não ser aceites, tendo realizado unicamente um busto de Luís XIV.
  
Obelisco do Elefante - Piazza Minerva

O escultor viria ainda a ornamentar o obelisco do Elefante, na Praça Minerva, mesmo ao lado do Pantheon e a esculpir a Fonte da Barca, no fundo da escadaria da Praça de Espanha.

As últimas esculturas de Bernini ,Daniele, Habacuc e o Anjo, formam realizadas para a Capela Chigi na Igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma.


Esculturas de Bernini na Igreja de Santa Maria del Popolo.

Os Anjos que deveriam estar na ponte de Sant'Angelo foram criados para o novo Papa Clemente IX; aqui o escultor executa uma série de anjos retratando o símbolo da Paixão de Cristo para serem colocados ao longo da Ponte Sant'Angelo. No entanto, só resta uma escultura assinada, hoje na igreja de Santo André delle Fratte.


Ponte do Castelo de Sant'Angelo ornamentada com réplicas das estátuas de Bernini.

Na igreja de São Francisco em Ripa, o artista enfrenta novamente o tema do êxtase, na Capela Altieri dedicada à beata Ludovica Albertoni. Este viria a ser o seu último grande trabalho.


Igreja de S. Francisco em Ripa

Estátua Ludivica Albertoni na Igreja de San Francisco de Ripa.

A sua última obra é um busto de Jesus como Salvator Mundi, num tamanho um pouco maior que o natural e com a mão direita levantada em posição de benção. Esta obra encontra-se no convento de São Sebastião Fora dos Muros, na Via Ápia antiga, em Roma. Este convento assenta sobre as famosas catacumbas de São Sebastião. Bernini teria oferecido esta obra à rainha Cristina da Suécia, que a recusou, afirmando não ter nada tão precioso para retribuir tão bela oferta. Queria o destino que a última criação de Bernini estivesse perdida por muito tempo, só sendo redescoberta em 2001.

Busto de Cristo - Mosteiro de São Sebastião

Igreja de Santa Maria Magiore - local onde se encontra sepultado Bernini.

Bernini morreu com 81 anos e foi sepultado na Igreja de Santa Maria Magiore, em Roma. Tendo servido oito papas, e sendo considerado pelos seus contemporâneos, não só o maior artista europeu, como uma dos suas mais importantes personalidades, foi o último dos génios de valor universal nascidos em Itália, e ajudou a criar o último estilo italiano a tornar-se uma norma internacional. A sua morte marca o fim da hegemonia italiana na arte europeia.

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