Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

Parque Provincial de Ischiguanasto - Valle de la Luna

"É o melhor local do mundo para ver os afloramentos do Triásico completos e de forma ordenada." Eis algo que me seduziu... 

Confesso que me seduziu (a mim) mas nunca pensei que este tipo de atractivo seduzisse muita gente. Afinal estava enganada. Eram muitos os argentinos que se juntavam à porto da entrada do Parque Triásico para iniciar a visita. Organizei tudo a partir de Valle Fertil, e por 150Ar (mais 70Ar de entrada no parque) integrei um grupo organizado no Turismo Vessa (que não se recomenda, embora não haja muito mais opção) que saiu da povoação até ao parque. 

O percurso no parque só pode ser feito de veículo. O guia entra no carro da frente e todos os outros seguem-no em caravana durante cerca de 4 horas. As excursões saem a todas as horas. Quando saí eram 9.15h e estava um grupo com mais de 30 carros, carrinhas e centenas de pessoas. Tanta gente, pensei! Fiquei boquiaberta. 
O guia do parque era muito "boa onda" e rapidamente ensinou a todos a história geológica da Terra começando por reduzir as eras geológicas à palma da mão. Adorei a simplicidade e lá fui tomando vários apontamentos para tornar a geologia numa coisa realmente simples. Começando do dedo mindinho tínhamos a Era pré-câmbrica, depois a Paleozóica, a Mesozóica, a Cenozóica e terminávamos no polegar com o Quaternário, também a mais pequena da história da Terra. Depois o guia vira-se para o público entusiasmado e pergunta:
- Quantas falanges tem o dedo do meio, o "Mesozóico"?
- Três, respondem as pessoas em coro.
- Pois bem, também o Mesozóico está dividido em 3 períodos: o Triásico, o Jurássico e o Cretácico. Vamos fazer a nossa visita ao Triásico e descobrir como era a Terra nessa altura. 
Fiquei boquiaberta. Esta visita tinha sido desenhada para mim mas parecia que muito mais gente estava a gostar. 
O percurso dentro do parque está predefinido e inicia-se nos materiais mais antigos do Triásico, com cerca de 230 milhões de anos. Nesta primeira paragem vê-se uma formação onde é possível apreciar vários níveis carbonatados, arenosos, cinzas de erupções vulcânicas e plantas fossilizadas. A ajuda do guia é fundamental.


segunda paragem é no chamado vale pintado, um vale onde as diferentes formações geológicas aparecem expostas de forma majestosa e colorida. As camadas estão ligeiramente inclinadas devido à subducção da placa de Nazca sobre a placa sul-americana que fez com que estes materiais apareçam tombados. O vale é encantador mas faltou a luz do sol e um céu azul para realçar a beleza do local.

Na terceira paragem, é necessário caminhar algumas centenas de metros para alcançar aquilo que os argentinos chamam a "Cancha de Bochas", uma área onde aparecem rochas em forma de bola, em tudo semelhante a calhaus rolados mas sem qualquer tipo de transporte fluvial ou glaciar.

Depois de ver alguns dos calhaus com duas ou três bolas juntas (parecem moléculas), rapidamente se percebe que não podem ser resultado nem da erosão fluvial nem de disjunção esferoidal. A explicação parece não ser muito estranha.


Ao que parece, os sedimentos arenosos acumulam-se em áreas onde existem materiais de composições diversas. A água subterrânea irá atravessar estes sedimentos e criar um cimento que irá unir os grãos formando assim uma rocha. Este cimento, predominantemente carbonato de cálcio, é atraído por algumas partículas e acumula-se em maior quantidade em seu redor, formando esferas. Quando os materiais ficam expostos o material mais endurecido pelo carbonato de cálcio aflora à superfície como bolas, as "bochas" desta formação tão peculiar e ao que parece única no mundo. 


No regresso aos veículos ainda vi a "esfinge". Nada que me impressionasse, até porque já tinha visto a do Cairo (que se diga está muito melhor esculpida).
Na quarta paragem, o grande atractivo do parque é uma formação rochosa designada "submarino". "Yellow submarine, yellow submarine" soava-me nos ouvidos. Esta formação, juntamente com o "Hongo", na quinta paragem, são as imagens de marca do parque de Ischigualasto.

No final do percurso, os veículos acompanham cerca de 6km de parede vertical de materiais avermelhados. É impressionante. Infelizmente, por esta altura começou a chover e não pudemos parar mais. Afinal de contas não se perdeu tudo. Entretanto cheguei ao museu que alberga algumas réplicas das ossadas de dinossauros (os mais antigos do mundo) descobertas por paleontólogos de Harvard. As verdadeiras andam por terras norte-americanas. Por esta altura já chovia torrencialmente.


O parque estava fechado há 3 dias e depois da minha visita voltou a fechar. Há muito tempo que não chovia aqui assim. Estamos numa área desértica e quando ocorre precipitação é uma tragédia para o turismo. O tour que contratei em Valle Fértil era para visitar também o Parque Nacional de Talampaya mas depois das chuvas o parque encerrou. Sendo assim, só havia uma coisa a fazer, regressar a Valle Fértil. O que não contava é que uma viagem de 50 minutos se transformasse em 4 horas em que as estradas se transformassem em rios, onde o caudal cruzava as vias como se por lá tivesse passado toda à vida. A natureza a reclamar aquilo que lhe pertence. 

Foi uma autêntica aventura chegar a Valle Fértil mas tudo acabou bem. A agência devolveu-me o dinheiro do segundo tour (parque de Talampaya) e eu resolvi mudar os meus planos. Não queria ficar presa em Valle Fértil devido ao corte de estradas. No dia seguinte havia que regressar a Mendoza.    

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

Vielas, gentes e histórias de Istambul

Desde que chegamos a Istambul, sabíamos que voltaríamos. Porque a cidade tem imenso para ver e visitar e porque a Turquia é um destino incontornável a que teremos de voltar, mais cedo ou mais tarde. Sendo assim, e tendo em conta o pouco tempo que tínhamos para a cidade, tivémos de fazer algumas escolhas, deixando para outra oportunidade (eventualmente com meteorologia bem mais favorável...) algumas das atracções da cidade. Um desses casos foi o palácio de Topkapi, que decidimos apenas visitar a parte interior à muralha, mas exterior ao palácio propriamente dito.

Foi por aí que começámos de manhã, não muito cedo, pois a noite anterior tinha sido a da passagem de ano... Entrámos pelo portão imperial e, logo aí, pudémos admirar a magífica igreja bizantina do séc. VI de Haghia Eirene. E digo igreja, pois é a única que não foi convertida numa mesquita, apesar de ter sido usada muitos anos como arsenal... A sua beleza austera e o facto de ser um testemunho quase único de uma época tão longínqua fizeram-me sentir uma estranha atracção por ela e só me apetecia ver o seu interior único! Infelizmente, está fechada ao público, havendo rumores que poderá abrir como um museu... Em seu redor, podem apreciar-se ruínas de outros edifícios bem abaixo do nível do solo.

Seguimos depois para o Museu Arqueológico. Apesar de ser um museu relativamente recente, a enorme riqueza do país fez com que as contribuições das diferentes regiões rapidamente transformassem este museu num dos mais importantes do mundo. Entre as suas mairoes atracções, contam-se o tratado de Cadés, uma placa de pedra onde está inscrito o tratado de paz mais antigo que se conhece, estabelecido entre os Hititas e os Egípcios em 1269 a.C., e os sarcófagos de Alexandre e o das Mulheres Enlutadas, mas a sua colecção é tão rica quanto vasta. Obrigatório!
Depois, seguimos para o bairro do Bazar, onde começámos pelo alto, visitando o edifício que domina o "skyline" da cidade, a mesquita de Suleymaniye. Mandada construir por Solimão, o Magnífico, data de 1557 e, sendo a mesquita mais importante da cidade, era o centro de um complexo de edifícios com missão de apoiar os mais desfavorecidos. O pátio interior é rodeado por colunas que se diz que vieram do camarote real do Hipódromo bizantino e, dentro do edifício, a enorme abóbada da cúpula domina todo o espaço.

Daqui, descemos por algumas vielas, vindo dar, quase por acaso, a uma mesquita fabulosa, a de Rustem Pasa, pequena mas muito tradicional e concorrida, com o seu interior profusamente decorado de azulejos Iznik.

Passando ao lado (uma vez que hoje estavam fechados) do bazar das especiarias e dos livros, chegámos à marginal da cidade, dominada pela mesquita Nova, que data do séc. XVII e que, apesar de ser mais recente, partilha com as outras muitos traços arquitectónicos.
Logo ao lado, situa-se Eminomu, o porto de onde os ferries partem para vários destinos, animado por vendedores de sandes de peixe. Deixámos o circuito do Bósforo para quando estiver sol e céu azul, e atravessámos pela ponte de Gálata (só por si uma atracção fervilhante de movimento e comércio) para o outro lado da cidade, o bairro de Beyoglu, situado numa íngreme colina, e durante muitos anos a morada de eleição dos visitantes estrangeiros da cidade. Durante o período otomano, Judeus, Árabes, Gregos e Arménios estabeleceram aqui comunidades e, ainda hoje, é uma zona conhecida como centro comercial e de animação da cidade.

Como a tarde já ia adiantada e começava a escurecer, decidimos subir apenas até à torre de Gálata para poder apreciar as vistas do seu cimo . No entanto, a fila bastante extensa e o preço um pouco proibitivo levaram-nos a optar pelo plano B. Assim, resolvemos pagar bastante menos por um lanche no terraço do hotel Anemon Gálata, onde descansámos e disfrutámos de uma vista fabulosa sobre o Corno de Ouro. O anoitecer deu-nos também oportunidade de tirar fotos fantásticas (modéstia à parte...).
Era tempo de regressar. Fizémos o percurso de volta sempre a pé e regressamos ao nosso hostel, onde por fim descansaríamos de um dia cheio, e onde teríamos de preparar as mochilas (e também psicologicamente!)  para partir na madrugada seguinte (às 5.00h!) para o aeroporto de Ataturk.

Tinha chegado a hora de voltar a casa... Mas não sem antes subir ao terraço do nosso hostel e disfrutar da sua localização fabulosa, e apreciar a mesquita Azul, de um lado, e a Haghia Sofia de outro, iluminando a noite de Istambul. Nada melhor para guardar de recordação desta cidade fantástica.

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Istambul - A cidade onde oriente e ocidente se encontram.

Chegamos à estação de Istambul por volta das sete da manhã. Mas não havia tempo a perder...
Apanhámos um comboio urbano e andamos para trás na mesma linha por onde tínhamos chegado, pois a penúltima estação ficava pertíssimo do nosso hotel e, assim, não seria necessário gastar dinheiro num táxi. Assim o fizemos, e passado pouco tempo já estávamos a fazer o check-in no Med Cezir hotel. A sua localização é absolutamente fabulosa... Basta percorrer a pé umas dezenas de metros e estamos na Ayasofia Meydani, a praça entre a mesquita de Haghia Sofia e a Mesquita Azul. Foi pela primeira que começamos o nosso percurso pela capital turca. E não podia ser doutra maneira; esta mesquita é um dos grandes monumentos do mundo e, apesar de inúmeras alterações e restauros, mantém-se neste local há mais de 1400 anos!
Inaugurado pelo imperador Justiniano em 537, no auge do império bizantino, a construção do edifício original fazia parte de um plano para tornar Constantinopla uma digna sucessora de Roma como capital do império. Durante quase 1000 anos foi a cidade mais rica da Cristandade e no seu centro ficava a igreja de Santa Sofia.
Construída em torno de uma nave central, enormes colunas seguravam uma cúpula de 56m de altura. Mais tarde foram acrescentados contrafortes exteriores de modo a suportar o enorme peso da estrutura. Mas as maiores mudanças vieram após a queda de Constantinopla, em 1453, para os turcos otomanos. A igreja foi transformada em mesquita, e foram acrescentados ao longo dos anos minaretes, túmulos e fontes. Isto levou a que, actualmente, o edifício tenha uma silhueta muito peculiar, sendo que não parece uma igreja, mas também não parece uma mesquita típica.
No interior pouco resta do esplendor da decoração inicial, mas ainda se podem observar alguns frescos fabulosos no 1º andar, assim como nos pórticos de entrada e de saída. De resto, a imensa estrutura alberga uma estranha mistura de elementos ocidentais e árabes. O mihrab, a galeria do sultão e o minbar partilham o espaço com a praça da coroação, o local onde eram coroados os imperadores bizantinos e as grandes colunas são encimadas por medalhões com inscrições do Corão. Visitar este edifício é uma autêntica lição de história, inspirando-nos uma sensação de humildade. Só por isto, vale a pena vir a Istambul.
Mas há muito mais para ver nesta cidade milenária. Logo ao lado, podemos visitar a chamada Cisterna da Basílica, uma grande cisterna subterrânea, mandada construir também por Justiniano, para satisfazer as necessidades do Grande Palácio, um vasto complexo de palácios, igrejas e espaços de diversão, ocupando a quase totalidade do actual bairro de Sultanahmet.

O tecto é suportado 336 colunas, cada uma com mais de 8m, sendo ainda possível observar duas colunas que se apoiam em enormes cabeças de Medusa, um testemunho do saque dos Bizantinos a monumentos clássicos.
Em frente podemos visitar a enorme Mesquita Azul, assim chamada pelos azulejos azuis que decoram o seu interior, especialmente as cúpulas. Construída no séc. XVII, é um dos edifícios religiosos mais importantes do Mundo e, ao contrário de Haghia Sophia, continua a ser um local de culto em funcionamento. O que é mais difícil de escolher é o que é mais impressionante: o seu interior ricamente decorado ou o seu exterior, dominado por cúpulas e semi-cúpulas e um enorme pátio, tudo rodeado por seis minaretes.
Depois deste banho de cultura, estava na hora de um banho de multidão... Estava na hora das compras! Dirigimo-nos ao Grande Bazar e ao Bazar das Especiarias.

O primeiro, completamente coberto, é hoje mais dirigido para os turistas e chega a parecer um moderno shopping, com decoração árabe! Construído logo após a tomada da cidade no séc.XV, este labirinto de ruelas e lojas continua a ser um marco inevitável de uma visita e faz parte da experiência perdermo-nos no meio da confusão.

O segundo é mais tradicional, vendendo todo o tipo de especiarias, ervas aromáticas e outros produtos como mel e frutos secos.
Era já o fim da tarde, e decidimos regressar ao hotel para descansar um pouco. Afinal de contas, era dia 31 de Janeiro e teríamos de festejar mais tarde a entrada do Ano Novo!

Sábado, Fevereiro 04, 2012

Istambul - Do Mar da Mármara ao Mar Negro atravessando o estreito do Bósforo.

O comboio percorre os carris. O Expresso do Oriente contorna a parte histórica de Istambul e do lado direito vejo o nascer do sol no Mar da Mármara. Estou definitivamente no fim do continente europeu e já vejo à minha frente o Estreito de Bósforo. Mais um marco geográfico que tenciono guardar na memória e no coração.

A cidade de Istambul há muito que me fascinava. É um local ímpar no mundo, uma cidade dividida por dois continentes. A cidade histórica de Istambul e a moderna Besikas radicam no continente europeu, ao passo que a parte de Uskudar localiza-se para lá do Bósforo, no continente asiático. Que outra cidade se pode dar a tamanha grandiosidade? 

Istambul está no imaginário de todos mas no de um geógrafo é uma referência constante. Chegar a Istambul e ver o estreito de Bósforo é maravilhoso. Uma sensação incrível e inexplicável. As águas negras do Bósforo fluem do Mar Negro em direcção ao Mar da Mármara e por conseguinte ao Mar Egeu depois de atravessar o estreito de Dardanelos. Haveria certamente muitas formas de aqui chegar mas não me lembro de nenhuma melhor do que a bordo do Expresso do Oriente.  

O estreito de Bósforo, com cerca de 35km de comprimento, separa a Europa da Ásia e une o Mar Negro ao Mar da Mármara. Apenas 650m separam o velho continente do mítico oriente, na parte mais estreita do Bósforo, mas a sua largura atinge 4,5km. A população cruza-o diariamente nas dezenas de ferries existentes. No entanto, muito mais do que ferries atravessam o Bósforo. O tráfego de transporte marítimo é impressionante. Centenas de barcos que transportam mercadorias atravessam-no diariamente rumo ao Atlântico. Esta é a passagem dos petroleiros carregados de crude com origem no Azerbaijão e no Mar Cáspio. O mundo aguarda este recurso energético como pão para a boca e os petroleiros que cruzam o Bósforo parecem estar a desempenhar eficazmente o seu serviço. No entanto, as águas mostram-se bastante negras e os níveis de poluição não enganam. A maioria dos ecossistemas existentes no Bósforo estão em risco.  

Mas o Bósforo esconde algo que poucos sabem. A corrente do Bósforo flui em duas camadas, transportando na camada profunda água do mar do Mediterrâneo para o Mar Negro e recebendo em retorno uma mistura de água do mar e água doce com o dobro do volume na camada superior. Existem assim duas correntes de direcção oposta, uma delas suficientemente forte para criar um rio por baixo de água  e que circula a cerca de 35m da superfície. Esta descoberta feita por cientistas da Universidade de Leeds, com o recurso a robots submarinos, é o único rio debaixo de água activo encontrado até ao momento.
O Mar da Mármara, cujo nome deriva das jazidas de mármore em algumas das suas ilhas, é um mar interior, apesar de não ser um mar fechado. Está confinado entre dois continentes e permite o contacto do Mar Morto com o Mar Egeu e por conseguinte o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. A abertura do Mar da Mármara está ligada à acção da tectónica que se manifesta numa enorme falha geológica que o atravessa transversalmente e que é responsável pelos inúmeros sismos que assolam esta região da Turquia e pelos seus mais de 1200m de profundidade.

Chegar a Istambul e apreciar o estreito do Bósforo, o Mar da Mármara, a Europa e a Ásia é um privilégio.

Domingo, Janeiro 15, 2012

CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE - CAP III: Mistério resolvido

- O comboio está atrasado 35 minutos. - Afirmou o detetive Pinto. - Isto pode ser problemático.
- Estamos aqui há quase duas horas e nem sequer temos reserva para couchette. Estou completamente gelada e já sinto tédio só de olhar para o painel informativo. - Referiu a detetive Mota.

Na estação de Sófia os dois detetives tinham os bilhetes na mão. No entanto, não conseguiram reservas para um compartimento com cama. Já haviam tentado por duas vezes comprar as reservas e, nada.
Sentados na enorme estação com um frio insuportável, os dois detetives aguardavam a hora de embarcar com destino a Istambul.
Na estação haviam vários viajantes na mesma situação. O frio era de cortar e só o facto de estarem parados ou sentados era demasiado penoso. Tinham que mover-se com as mochilas às costas de forma a evitar as dores provocadas pelo frio.

O comboio dá entrada na estação de Sófia. Vem de Belgrado. Um casal americano corre em direção ao comboio. O relógio indica com exatidão a hora: 19.40h.

O revisor conversa com o casal americano. Havia no seu tom algo indescritível que fez com que os dois detetives olhassem para ele com curiosidade. O revisor indica ao casal para avançar.
- Tickets, please.
- We have tickets but we don't have sleeper´'s reservation. We would like two beds, please. Is it possible? - Perguntou a detetive Mota.
O diálogo prosseguiu em inglês.
- Queiram acompanhar-me. - Disse o revisor.
O casal americano voltou para trás e tentou usurpar os lugares dos dois detetives. No entanto, a rapidez de pensamento e de movimento dos detetives foi mais eficaz. Tinham conseguido duas camas no compartimento de um casal italiano.
Um solavanco e o comboio inicia a sua marcha. Ambos olham pela janela e vêem a longa plataforma iluminada que deslizava lentamente por eles.
- 10 euros por pessoa. - Disse o revisor.
- Podemos pagar em Lev?
- Isso não tem qualquer valor. Euros.
Era mais do que evidente que não lhes iriam aceitar o dinheiro búlgaro. Depois de efetuar o pagamento e de se acomodarem devidamente, os dois detetives resolveram jantar algo e descansar. Adormeceram rapidamente. O Expresso do Oriente prosseguia a sua viagem de onze horas em direção a Istambul.
Os dois detetives foram acordados algumas horas depois com um sobressalto. Sabiam perfeitamente o que os tinha despertado: vários gemidos, risos e gritos no compartimento do lado. Alguns gemidos pareciam disfarçar gritos abafados.
- O que estará a acontecer? - Questionou-se o detetive Pinto.
- Estranho. - Acenou a cabeça a detetive Mota. - Muito estranho.
As luzes acenderam-se e repararam que o comboio parara. Algo se tinha passado no compartimento ao lado.
- Terão todos de sair do comboio. Todos para a plataforma. - Disse o revisor enquanto percorria o corredor da carruagem.
Os dois detetives saíram. O frio era cortante e embora não caísse neve lá fora e a plataforma estivesse resguardada, era bastante incomodativo. O relógio marcava exatamente 2.43h da madrugada. A detetive Mota batia com os pés e abanava os braços para se manter quente.
- O que se estará a passar? - Questionou-se a detetive Mota. - Estará relacionado com os sons que nos acordaram?
- Muito provavelmente alguém foi ferido no comboio. - Afirmou o detetive Pinto enquanto os sons dos gritos abafados ainda ecoavam nos seus ouvidos.
- Suspeito que possa ter acontecido algo ao casal americano. Repara no ar suspeito do revisor. - Disse a detetive Mota.
Vários viajantes circulavam na plataforma.
- Passaportes e vistos. - Grita o revisor apontando para uma porta.
O casal americano continuava desaparecido. Teria tido o mesmo destino que o casal belga? Estariam a raptar casais no Expresso do Oriente?
- Suspeito que o casal americano foi raptado. - Disse o detetive Pinto.
- E qual o motivo?
- Vamos refletir. O casal americano ia à nossa frente. Deveriam ter sido eles a ficarem no nosso compartimento. No entanto, como fomos mais rápidos, ficamos nós no compartimento nº1 e eles passaram para o compartimento que deveria ter sido ocupado por nós. - Argumentou lentamente o detetive Pinto. - Isto poderá significar...
- ...que o casal americano foi levado em nosso lugar. - Interrompeu a detetive Mota. - Isto é terrível.
Os dois detetives prosseguiram em direção ao controle alfandegário. Depois de pagarem 15€ pelo visto, os seus passaportes foram carimbados e o revisor ordenou que voltassem ao compartimento. Na estação e no comboio não havia sinal de americanos. Os dois detetives acomodaram-se e passado alguns minutos chegaram os italianos. Pouco tempo depois já os italianos dormiam e os dois detetives mantinham-se em vigilância.
O Expresso do Oriente prosseguia em direção a Istambul. De repente a detetive Mota acorda o detetive Pinto.
- Parece-me que vi passar o diabo da Tasmânia. Será possível?
- Ah! Não pode ser. Não o vimos na plataforma quando paramos.
- Estará escondido? Algo muito suspeito se está  passar. Andará o diabo da Tasmânia escondido neste comboio este tempo todo? - Questionou-se a detetive Mota.
Durante a noite o calor tornou os corpos relaxados e os dois detetives adormeceram profundamente.
- ISTAMBUL! ISTAMBUL! - Grita o revisor com entusiasmo.
Os dois detetives saltaram imediatamente da cama. Pela janela do compartimento viam o comboio acompanhar o mar da Mármara. Do lado do corredor o comboio acompanhava a muralha da cidade. Estavam a chegar a Istambul. O comboio circulava o Corno de Ouro e o mar da Mármara dava lugar ao estreito de Bósforo. Do outro lado estava a Ásia.

O comboio chega à plataforma 3 e os dois detetives saíram. Na plataforma despediram-se do casal italiano e enquanto a percorriam, a caminho da entrada da estação, cruzam-se com o casal americano que conversa alegremente. Mais à frente vêem o casal belga que tinha desaparecido no troço entre Budapeste e Belgrado. Os dois detetives respiraram de alívio.
Na entrada da estação há um restaurante de seu nome Oriental Express. Lá sentado, fumando um cigarro, estava o diabo da Tasmânia.

Os dois detetives trocaram sorrisos. O Expresso do Oriente chegara a Istambul.

      
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